Pão e Cerveja

Por que não escolhemos mais as cervejas pela simples vontade de beber?

De repente você deixa de tomar as cervejas que tem vontade, dando preferência àquelas que todo mundo comenta e exalta. Mas e o prazer de beber a cerveja? Aonde foi parar?

Flor da Bananeira, Cervejaria Zalaz

 Curtir a cerveja  virou detalhe

Já reparou que beber cerveja hoje em dia é mais um ato público, de auto-afirmação, de pertencimento, de publicidade, de exibiçao e menos de vontade e identificação? Engraçado como mudam as perspectivas… houve um tempo em que queríamos provar as novas cervejas, geralmente feitas por amigos, para sentir seu sabor, para nos deliciarmos com elas, para tecer comentários construtivos. Hoje, me parece,  tomar cerveja virou uma profissão, na qual são muitos os conhecedores e entendidos prontos para apontar erros. Ou prontos para pontuar no Untappd. Ou prontos para mostrar no Instagram. Curtir a cerveja mesmo, que é o melhor, virou apenas um detalhe… Você consegue se lembrar há quanto tempo você não compra uma cerveja simplesmente pela vontade de bebê-la?

Pouco prazer em bebê-la. Muito orgulho em demonstrar que bebeu.

Outro dia, passeando no MASP, fiquei observando as pessoas diante dos quadros na exposição da Tarsila Amaral. Poucas, quase nenhuma, estavam ali para ter uma experiência de vivenciar aquelas imagens, de deixá-las dialogarem consigo. O mais importante era tirar fotos com o celular ( que, tenho certeza, jamais serão vistas. Cairão no limbo das fotos de celular, um lugar nunca revisitado!), selfies em frente às telas mais famosas e mostrar que estavam ali. Nenhuma troca, nenhuma auto-transformação se deu. E, desconfio, estamos caindo nessa armadilha também com a cerveja. Pouco prazer em bebê-la. Muito orgulho em demonstrar que bebeu.

Por que não procurar apenas o prazer em uma cerveja?

Flor da Bananeira, Cervejaria Zalaz

Em outra experiência vivida há alguns dias, tive de ir à loja Mamãe Bebidas, em Belo Horizonte ( para mim a tradução de parque de diversões), comprar um rótulo específico de cerveja, necessário para a reunião de uma confraria de estudos. É claro que diante das imensas prateleiras, repletas de rótulos diferentes, fiquei sapeando o que havia ali . E de repente bati os olhos nesta cerveja aí da foto. Imediatamente me chamou a atenção o nome e a explicação de um ingrediente que eu adoro: doce de banana. Na mesma hora, sem consultar rankings na internet ou procurar informações de medalhas ou dicas hipsters sobre ela, peguei a garrafa e comprei. Vocês não têm a noção da minha alegria ao sair da loja com esta cerveja nas mãos. Uma cerveja que me deu vontade de beber! Sem qualquer pretensão exibitória. Simplesmente vontade de sentir o sabor. E foi aí que me veio o insight de escrever sobre isso aqui. Por que não procurar apenas o prazer em uma cerveja?

A ditadura do Untappd

O escritor e mestre norte-americano,Randy Mosher, no curso de Degustação Profissional e Estilos, do qual participei mês passado em São Paulo, disse uma frase que não me saiu mais da cabeça: ” nem todo mestre-cervejeiro tem a felicidade de fazer a sua cerveja sem a preocupação com o Untappd”, referindo-se à ditadura da necessidade de novidades e loucuras constantes lançadas em forma de cerveja para estar bem no ranking das mais tomadas. Fiquei pensando que a ditadura também atinge o consumidor, que tem perdido a espontaneidade em gostar ou não gostar de uma cerveja baseado apenas em seu paladar.

Conselho de graça

Quer um conselho? Volte a beber cerveja impunemente! Não se deixe levar pela falsa ideia de likes em redes sociais, como se isso fosse te credenciar para qualquer coisa. Como diz o ditado: na vida mais vale um gosto!

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