Pão e Cerveja

Pais e cervejas

Meu pai não tomava cerveja. Pelo menos até boa parte da minha vida, ou da dele. Bebia uísque, e gostava bastante. Bebia também uma fórmula que adorava ditar aos garçons dos bares e restaurantes que frequentava. Com os mesmos metódicos gestos, fazendo uma espécie de medida com os dedos, pedia: uma dose de gim, uma dose de Campari em um copo longo,um outro copo com gelo e uma água tônica à parte. Com todos esses elementos, por toda a noite, ele sorvia tal bebida, misturando aos poucos a tônica no copo tingido de vermelho-rubi. Nós todos da família, que de cor sabíamos aquele pedido, sorríamos por dentro, condescendentes com as manias e toques do velho João Batista de Assis de Corrêa. Jornalista dos bons, das antigas, que tratava todos com tanta simpatia. Era um homem do bem!

Um dia, já velho, ao parar de fumar, vício que alimentava desde os 14 anos, descobriu a cerveja! E passou a gostar dela. Dizia que começou a sentir o verdadeiro gosto da bebida, com a língua não mais poluída com o fumo. E, metódico que era, adotou tomar sua cervejinha à noite. Um dia, um diabetes cortou o barato de Seu João e a cervejinha teve de ser limitada. O médico, sabedor de que cortar tudo que um paciente gosta é insucesso em qualquer tratamento, permitiu uma latinha da loura aos fins de semana. " Ordem" médica de pronto atendida, religiosamente, sem discussão. Como uma lei, a cerveja de sexta e de sábado era exigência do velho João. Os filhos, com pena de cortar logo aquilo que mais o agradava, levavam latinhas de cerveja sem álcool, sem que ele percebesse, uma vez que um glaucoma havia lhe tirado, quase na totalidade, outro bem dos mais preciosos.

Sinto pena ao pensar que meu pai não viveu para compartilhar comigo esse gosto pela cerveja. E não digo o hábito de beber, mas o interesse pela história tão rica dessa bebida. Tenho certeza de que se ainda estivesse aqui conosco, Seu João me ligaria às sextas-feiras para pedir "essa" ou "aquela" escolhida por ele como sua preferida. E iria me perguntar sobre o tema de meus artigos aqui nesta coluna. E se interessaria em saber das novidades do segmento, curioso que, assim como eu, era. Hoje, então, Dia dos Pais, no almoço especial do qual ele não abria mão, seria um regalo poder levar uma cesta de belas cervejas para presenteá-lo e brindar com ele o gosto pela boa mesa. Na ausência dele, brindo aos pais que me leem neste domingo e desejo um dia feliz, regado
com aquela cerveja que
lhe for especial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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