Pão e Cerveja

O segredo é o corante caramelo…

Minha avó Esther adorava uma cervejinha preta. Contava meu pai que ela não abria mão de um copinho de Malzbier, docinha e encorpada. Se alguma mulher próxima tinha filho, a receita era infalível: um copo de cerveja preta, todos os dias, para dar leite! E assim cresci eu, encarando como delícia permitida e boa para a saúde aquela tal bebida escura e forte. Longe de mim querer ser desmancha-prazeres, mas a verdade tem de ser dita: Malzbier é fake!!

Outro dia, almoçando no sítio de amigos no interior de São Paulo, ouvi essa mesma lenda: adoro cerveja preta, ela é forte, mas é doce e faz bem pra saúde. Ajuda a mãe a produzir mais leite no período de amamentação. E me perguntaram se isso era verdade! Foi então que respondi: quer saber mesmo? Ou prefere continuar tomando sua cervejinha preta na ilusão? Como me pediram a tal sinceridade, aqui vai ela. Na grande indústria, a produção de cerveja é monumental, estamos falando de milhões de litros a cada leva. E o que acontece quando um tanque de cerveja pilsen, essa comum, a loura gelada, estraga? Se azeda, se fica turva, se sai dos padrões aos quais o mercado está acostumado? É óbvio que não é jogada fora. Seria dinheiro, literalmente, escorrendo pelo ralo. Solução: juntam-se em outro tanque todas as levas de cerveja defeituosas e a partir desse “blend” infeliz faz-se uma nova cerveja. Escura, para disfarçar a turbidez. Doce, para mascarar gostos e cheiros indesejáveis. Voilà! Eis aí a querida cervejinha preta, a Malzbier, que tanto agradava à minha avó! Como se consegue isso? Simples. Acrescenta-se
corante caramelo à loura sambada! O bendito do corante colore e adocica.

Você pode estar se perguntando: e daí?. Qual o problema de colocar corante, se a cerveja fica tão gostosa? Para mim, trata-se de jogar limpo, ou não. E, nesse caso, a indústria não presta a informação ao consumidor. A lei não obriga que esse aditivo seja declarado nos rótulos, então vai-se produzindo cervejas pretas, ditas diferenciadas, sem avisar ao cliente o que ele está ingerindo. É simples assim. Para mim, realmente, faz pouca diferença, pois, ao contrário de minha avó, nunca fui fã de Malzbier. Não gosto de bebidas doces. E, cá pra nós, aquele gosto de pirulito Zorro na cerveja está longe de agradar ao meu paladar. Para aqueles que apreciam, nada impede que continuem tomando a sua pretinha sem culpa, ainda que seja um lobo em pele
de cordeiro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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