Pão e Cerveja

Mais um caso de amor envelhecido…

Já falei aqui que tenho a estranha mania de guardar cervejas vencidas. Acho que arregimentei uma turma para fazer o mesmo depois de revelar isso neste espaço. E como retorno sobre sucessos e fracassos é importante, preciso contar sobre a última experiência que tive com as minhas “cervejas de guarda”!

Há cerca de quatro anos meu amigo, o biólogo-cervejeiro Humberto Ribeiro, da Jambreiro, uma das cervejarias conjuradas Inconfidentes, de Nova Lima, resolveu estabelecer o que ele chamava de “ vale-cerveja”. A cada leva produzida, Humberto me presenteava com algumas amostras. A maioria delas eu tomava logo, sem reservar. Mas uma em especial – a Belgian Dark Strong Ale, produzida em 2011, guardei até a última semana, quando resolvi abrir-la em uma festinha de família. Meu Deus!! Vocês não têm noção do que o tempo fez àquela cerveja!!! Por ser escura e bastante alcoolica, a bebida ganhou notas de envelhecimento que lembravam especiarias, como baunilha e madeira. A carbonatação se perdeu quase toda, transformando o líquido em algo licoroso e aveludado. O álcool também se amenizou com o tempo, cumprindo bem a tarefa de conservar a cerveja, mas não transparecendo tanto no aroma, apenas na sensação de aquecimento da garganta. Era como tomar um vinho do Porto, por exemplo. Uma experiência de sabor e prazer. Diante da maravilha consumida e já prevendo a vontade de repetir essa experiência, coloquei outra Belgian Dark Strong Ale em minha estante seca e escura, garrafa em pé, para dormir nos próximos três ou quatro anos.

No dia seguinte, resolvi abrir uma English Barley Wine, também guardada por três anos pelo próprio produtor, outro bom amigo cervejeiro, o Felipe Viegas, da Taberna do Vale, que me presenteou com a garrafa, sem rótulo mesmo, sabendo da minha predileção por cervejas envelhecidas. Outra experiência de puro prazer! A cerveja estava um verdadeiro vinho de malte, como diz o nome. Intensa doçura, corpo preguiçoso escorrendo pelo copo, nos quais deixava lágrimas nas paredes. Não era uma cerveja para ser tomada sem prestar atenção. Era para curtir cada gota, em pequenas doses.

O que tenho a dizer é que agradeço demais aos meus amigos que produzem essas delícias e têm a boa vontade de me presentear com elas. Agradeço mais ainda à lição de dar tempo ao tempo. Dar tempo à cerveja.É, meu amigo, é preciso paciência para ter momentos assim. A cerveja e o tempo têm uma relação muito estreita. Ambos precisam se respeitar. E no caso da bebida de guarda, esse respeito só traz recompensas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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